Garganta seca, carta na mesa. Bateria morta no alarme da importância. Os cigarros quebrados e o isqueiro acabado. As câimbras nas teclas do piano. O barco que afunda, e afunda, e afunda no mar das lágrimas salgadas do seu capitão desolado. O peso do aço, e o peso de dar um abraço com os braços amputados. E a gravidade - imperadora imponente de todos os corações ajoelhados.
O grave do baixo, o estalo do traste. A última bolacha do pacote, murcha e moída, arreganhada e doída. Aquela, que nem o cachorro da rua se atreve dar uma mordida. Ao vento, a manchete suja pelo machete ensaguentado do açougueiro. “4 Morrem em dilúvio, 1 de descaso”. As letras que se sufocam no peso da mão do calígrafo. “Esgoto da cidade transborda de desgosto, veja mais na página 8”. Os dias que nascem e morrem na vida (in)útil de um periódico.
O mundo e o sujeito. A 1ª Pessoa em choque com o texto. O estalo do beijo da louça no azulejo. As coisas que se quebram sem ruído. O silêncio triste nos olhos da solidão de quem não está sozinho. A omissão de um desespero que deveria ser socorrido. Não há Boletim de Ocorrência para coração partido. Não há Estado que ressarça os acidentes e fraturas do espírito.
O vizinho que atropelou, bêbado, um primo. O amigo que deu um tiro, acordou no dia seguinte, e leu a sua própria carta de suicídio. O padeiro que arrancou, em uma brincadeira, o dedo do filho. A avó esquizofrênica que fala apenas com aqueles que não estão vivos. A namorada que desperta a noite em seu leito vazio. As vozes que falam pela ausência dos amigos. As ruas que andam e cagam para quem nelas pisam. A indiferença ou pena, a desolação, o desespero e o vazio, o vazio e o vazio. A impotência que deixa flácido o ego de quem não se dá por vencido. A distância que cresce na carência daqueles que não podem ser sentidos. O egoísmo que não permite a compaixão na empatia do sofrimento amigo. E o mais súbito desespero em se encontrar completamente sozinho, sem a possibilidade de um suicídio limpo.
A garganta molhada, e o copo vazio.
Bateria morta vazando dentro do alarme do juízo.
Bitucas dançando, cinzeiro partido.
Dentes quebrados nas teclas do piano ensanguentado.
O desespero que inunda a nau chamada 'Esperanza'
O peso do aço que amputa os braços antes de darem o seu último abraço.
E a gravidade, que chama a todos para baixo.
Tudo isso no Ordinário mundo dos vivos.
__________________________________________________________________________________
Escrito escutando Street Spirit (Fade Out) no looping. Sem muito o que falar, cansado de tudo. Só sei que a tendência de tudo é piorar, e não tem ninguém disposto a ajudar. Desespero de merda e natureza humana de merda. Alguns dias eu fico pensando se realmente alguém se importa com alguém nessa vida, mesmo que seja pra escutar 15 minutos... Cada vez mais chego a conclusão que não. Foda-se eu né, nessa vibe emo-reclamão, e por isso acho melhor encerrar antes que eu mesmo, daqui alguns meses ache isso tudo um exagero. Mesmo sabendo que não é. Sendo assim, besos e fui.


Pode até ser vibe emo, mas sabe que rendeu umas reclamações bonitas?
ResponderExcluirPS: Calçadas que andam & cagam ainda são melhores do que aquelas que nos quebram a perna. De alguém que já tropeçou boas vezes nessa vida.
Que ordinário mais extraordinário! Há sempre algum outro ordinário pra ver beleza onde tudo parece extremamente desprezível e encontrar um eco de seu lamento no lamento do próximo. Acredite, há a empatia. Problema é que, ao contrário dos emos-reclamões que se juntam em bando atrapalhando o caminho dos outros na calçada, os auto-desprezados se julgam tão ordinários que resolvem se isolar do resto da ordinariedade e ter ao seu lado apenas a solidão.
ResponderExcluirFica um pouco mais. Sempre há palavras a serem ditas. E neste mundo tão ordinário... elas são muito necessárias.
ResponderExcluirdei um google pra um tweet da vanessa fioravanti e caiu aqui. gosto do jogo de faqueiro que aparece por ai. inclui nos lidos para poder voltar.
ResponderExcluir