
Você que gosta dos jogos de faqueiro, e de brincar em gestos lentos com as lâminas cegas do meu afeto, escute as entrelinhas do que eu tenho a dizer. Sim, falo com você, que amargura com os seus cigarros apaixonados entre os dedos, encontrando nas cicatrizes das brasas que queimaram os lençóis da cama, os fantasmas do nosso cheiro, cravados entre os tragos de fumaça e os cinzeiros cheios.
Peço que, mais uma vez, encavale essa maldita língua em minha pele enquanto ela desata em nós obscenos os seus desejos frustrados. Restituía aquilo que o seu corpo reivindica em desespero. Legalize o meu sadismo com as assinaturas da sua violência, documentadas em linhas juramentadas pelo seu rancor que tatua o meu corpo com as marcas da sua arcada dentária. Vamos, como consumidora, imponha com vício a conquista desse seu direito.
E com a boca faminta, me cubra de navalhadas, deixando seu testemunho enterrado entre as frestas das mangas das camisas, para que de relance, nenhuma outra mulher duvide do ódio que você cultivou com tanto esmero por mim. E não se esqueça de fazer da luxúria um manifesto homicida da sua vontade, para que eu também tenha direito de alegar legítima defesa, em caso de desenterrarem a sua carcaça violentada, jogada e surrada, em alguma beira-de-estrada.
Diga que já basta. Que o mundo está farto de possíveis futuros. E que por isso também concorda, que o para sempre, é muito tempo para você e para mim. Assim, afinal, podemos continuar com a única coisa que ainda persiste, até agora, sem encerramento - a pequena morte que veste de negro a obesidade envergonhada do dia, e que depois, em doses desmesuradas, sacia com sexo o vício dos prisioneiros desse cárcere voluntário onde o tempo ignora a si mesmo.
Por fim, observo a aniquilação se aproximar na presença muda do seu corpo, sufocado pelo seu abraço que rouba o ar ofegante do meu peito. Sepultado no peso de seus olhos que fazem de leito o meu ombro, finjo estar cansado da brutalidade dos nossos atos, e com os dedos entrelaçados nos seus cabelos, acaricio você apenas para puxar o seu pescoço em desafeto velado.
Orgulhosa, você sorri com sarcasmo.
Com ira, eu rio em réplica a petulância do seu ato.
E os corpos voltam a tremer, fodendo apaixonados na comunhão desse tão devotado ódio.
___________________________________________________________________
Praticamente, uma forma de provar que as coisas que eu escrevo, independente do estado de espírito em que eu esteja, eu sei o que querem dizer e o que eu exatamente quis dizer com elas ;) . Bom, desculpem a demora pra voltar crianças, estive com bloqueios pra escrever, correndo atrás de 'dinero' e ocupado com mil outras coisas da vida. Mas prometo que não abandonei o ofício... Claro que se eu ganhasse alguma coisa, com certeza vocês veriam mais posts freqüentes haha. Na realidade, pensei que o Vinil Literario, da inteligente e de muito bom gosto, Talita Alves, iria voltar a ativa antes, mas pelo visto eu ganhei a guerra do mundo ocupado/ócio - ou seja, querida, se eu postei algo novo antes que você, é que o negócio deve estar brabo mesmo.
Bom, é isso... Deixem ae a suas humildes opiniões, meus queridos, e fiquem com os meus mais sinceros votos de ódio.

Delicioso!
ResponderExcluirTeus textos sempre sensiveis, mas vorazes e é puro tesão!
ResponderExcluir