terça-feira, 29 de dezembro de 2009

XXX

Cheiro de açúcar queimado ao lado do jogo de faqueiro largado na banheira surrada que foi usada como cinzeiro. Um cigarro atrás da orelha, para o meu santo injustiçado, esperando que ele conclua os meus desejos adiados. Um cigarro aceso agora, para ajustar um julgamento acerbado, um juízo ainda não finalizado, nesse petit apocalipse marginal de medos infundados.

Do outro lado da porta do banheiro, em credo velado, dorme a minha prece - aquela para que você não escute o silêncio da cama vazia ao seu lado, ou o ruído na tampa do vaso em que agora me agarro. Bote salva-vidas nesse mar turbulento onde se descarrega todas as fezes de um coração estupidamente chapado, navegando na opulência desse palácio de azulejos brancos que me deixa mareado. Cada sanitário é o purgatório para um viciado, onde o tempo não julga a vontade de seu desejo desenfreado. Por isso que no badalo das baladas dos graves amplificados, há sempre um banheiro amigo para estender a mão para o tesão alcoolizado, o nariz envergonhado ou o estômago revoltado.

Mas muito além da imundice dos meus excessos, ou do vômito que escorrega dos meus lábios, há algo que me impede de sair desse banheiro e lhe arrancar um beijo fetichista e amargo. Pois aqui eu me escondo daquilo que me espera tão ansiosamente. Sim, daquilo que carrego com malícia no olhar curvado e na ponta da língua afiada que retalha o rosto do amigo desavisado. Que desperta cruelmente sempre que estou ao seu lado, sedento para submetê-la a minha vontade insaciável. Meu demônio libidinoso. Incontrolável. Belo. Elegante. Monstruoso.

Sim, eu que currei seu corpo mil vezes; que invadi sem permissão suas entranhas com a violência dos meus dedos; que puxei seus cabelos no meu afeto descontrolado. Eu, que na minha fome desenhei hematomas nas suas coxas; que rasguei com unhas gastas a sua carne em ódio e desafeto; que violei a sua vontade a favor do meu desejo cego e alienado. Eu, que de recordação, lasquei o meu canino na tensão de meus dentes raivosas; que hasteei dezenas de ereções em seu nome; que perdi a memória da minha face no meio de suas pernas; que joguei seus seios contra a parede, segurando seus braços como um estuprador doente; espero, mesmo que custe minha vida, consumir seu corpo até que não reste mais nada de sua carcaça arrogante, arreganhada e dormente.

E você, que sentiu o peso condescendente do meu corpo descuidado; que experimentou do veneno de minha porra quente; que sentiu o perfume amargo em meu suor egocêntrico; ainda não conhece completamente a libido de minha crueldade, o sadismo em meu sorriso a detrito de seu sofrimento. Desconhece que amo tudo aquilo que temo em mim mesmo. Que depois de enchê-la de beijos, eu me viro ao lado, fornicando com essa criatura morfética, que me ensinou o gozo em machucar a todos aqueles que eu mais quero.

Sei que enquanto eu estiver deitado nesses azulejos encharcados de urina, estou a salvo dele. Mas não de seus desejos, filha da ira. Nunca de seus desejos, besta infernal. Mas às vezes, eu penso, encolhido em meu pequeno banheiro, que se saísse daqui, poderia descobrir que não há medo. Que não há monstros. Muito menos essa vontade de foder com os outros. E que no final, para o meu constrangimento, eram apenas anseios de amor e ódio, perdidos entre a escuridão e a porta deste banheiro fétido e asqueroso.


____________________________________________________________________

Primeiramente, mil desculpas a demora em postar algo novo. Com a mudança pra São Paulo e outras mil coisas, acabei negligenciando o blogue. Mas bom, estou de volta, não estou? Assim sendo, falar rápido do texto. A idéia era tratar um pouco mais de assuntos sobre consumação, sexo, sadismo, impulsos negativos, usando a metáfora do banheiro, que, na minha sincera opinião, quando você se tranca nele, o tempo para. Lugar especial que todo mundo tem em casa, que é um canal de amoralidades e imoralidades. Praticamente um oásis de excessos, sofrimentos e arrependimentos (isso é claro, quando não é utilizado praticamente, ou seja, para excreção e banho ;) ). Talvez tenha ficado um tanto denso e pesado, mas se essa é a impressão que vocês tiveram, então consegui passar o feeling exato que eu estava procurando. É isso aí crianças. 10:00 da manhã de Terça, acho que é hora de dormir haha. Bjos e abraços.




1 comentários:

  1. E para se juntar ao sadismo vem seu companheiro, o bom e velho masoquismo, pra me fazer registrar aqui nessa caixinha: adorei o soco no estômago. Muito bom o texto!

    ResponderExcluir