terça-feira, 10 de novembro de 2009

Curtas


Clarissa, Noiva. 24. A antecipação precedeu os sorrisos. Acenos e risinhos nervosos contraíram involuntariamente suas bochechas rosadas. Amigas e comadres; viúvas e tias; todas aquelas vagabundas reunidas, repetindo: “querida, hoje será o dia mais feliz de sua vida”. Assim desfilava de branco a mais linda porta-bandeiras de uma causa perdida. Com olhos que brilhavam molhados e se seguravam para não borrar o contorno do lápis negro. Com lábios que tremiam e mostravam a fragilidade da nicotina em seus dentes. Com tudo aquilo que dá direito ao leitor em suspeitar que a narrativa está omitindo algo. Algo que faça de hoje, talvez, o dia mais infeliz da vida de Clarissa.

Casablanca, Fotógrafo. 37. Acordou e foi para o banho. De gilete na mão, aparou os pelos pubianos, deixando os testículos lisos e brilhantes. Secou a pele irritada, acendeu as tochas e acertou o foco. Puxou o cabo de sincronia e fez fotos de seu sexo perfeitamente depilado para uma proposta artisticamente estúpida e sem sentido. Logo depois, arrastou para o chão a poeira nas arestas de sua mesa, e posicionou um leque de cartas que recebeu pelo correio. Abriu todas, menos uma. Continuou os rituais matinais e dispôs os braços no exercício diário em retirar o excessivo e desnecessário de sua vida. Arregaçou as mangas da camisa, e parou ao primeiro sinal de suor. Transpirava, não pelo esforço físico, mas pela tentação em abrir o convite de casamento de Clarissa. Amante. Ex-namorado. Corno passivo. Quem sabe? Talvez os três. O que nos importa é que sofre. Guarda para si algo que mantém como cravo para se manter acordado. Fica o homem e o silêncio, cúmplices deu seu próprio sofrimento. O resto é a gordura narrativa entediante que não vale a pena ser descrita.

Eloá, Dama de Honra, 24. Bem-humorada, se expressa sempre pelas cores de suas unhas. Das francesinhas às florais, dependendo do dia. Abriu exceção para a cor proibida, o preto, no casamento de sua melhor amiga. Alisou os cabelos encaracolados, e sorriu ao longo da tarde, transformando falsidade em alegria. Mas quem a Eloá bem conhecia, via a amargura expressa nas suas cutículas feridas. Desarmou o noivo com um olhar e incentivou a amiga a dar um passo errado na vida. Mal comida e intrometida, abençoa o matrimônio que condena. O tempo, com seus segredos, talvez traga a tona a paixão que nutre pelo noivo. Ou a faça esperar muito tempo para que se apaixone por outro. No final, têm grandes chances de terminar gorda, velha e sozinha. O narrador se abnega a ter pena de sua fraqueza. Talvez comova o leitor, e faça com que derrame uma lágrima. Artífice barato para a vaidade do escritor que sente orgulho em entristecer o outro.

Augusto, Convidado. 29. Observa o circo pegar fogo da última fila. Se julga maior que todos esses animais que o cercam. Enaltece-se, engrandecendo-se em sua própria soberba egocêntrica. Como o diabo, mantém-se quieto, segurando as chaves para todos os segredos contra o peito. Pois Augusto sabe capitalizar sob o sofrimento. Sofrimento esse que é apenas seu, mas que pretende tornar alheio. Ressentido, terá ainda o seu momento. Aguarda sabiamente para dar o bote nos amigos. E quando perguntarem porque vendeu a felicidade deles por tão pouco, revelará tudo que lhe fizeram ao longo dos anos. É louco, mas carismático. Personagem que todos amam odiar, pela sua sutil esperteza. Se for escrito por um realista, se dará bem no final. O que importa é que com elegância sua maldade sempre triunfa.

Paulo, Engenheiro. 42. Observa pela janela preparativos de um casamento na igreja em frente a sua casa. Sente um peso nas pálpebras inchadas e caídas, lembrando do dia em que subiu ao altar com Marina. O peito se enche, mas a pele esfria. Seu filho pequeno grita. Choro e desespero. Pela centésima vez pensa o que seria dele se matasse toda a sua família. O café-da-manhã e o silêncio. Torradas nadando no leite ensangüentado, deixando um gosto gorduroso em seus lábios. O pulso contrai com a idéia, e ele respira. Um trago de oxigênio. Tempo suficiente para salvar algumas vidas. Amanhã, talvez, ele se torne capa de manchete pela brutalidade do seu crime, e não pelo esforço que teve até hoje em agüentar aquele inferno de vida. Um crítico dirá que a personagem foi vítima do mundo moderno. Na literatura é mais fácil ser absolvido das chacinas do que no tribunal da vida.

Lucas, Cartunista. 22. Caminha sem rumo pela praça. Cansado, não percebe o casamento acontecendo do outro lado. Pensa no amor, na morte e na metafísica. Se distância do drama e da realidade, agora que conquistou o amor de Larissa. Justo ele, que sempre foi uma fatalista. Que fumava quase dois maços e bebia de Quarta a Sábado. Que não acreditava nem em Deus e no Diabo. Que pensava que já sabia viver sozinho. Seu peito explode em alegria. Mais 10 passos e provavelmente será atropelado pelo ônibus que está virando a esquina. Dona Zuleika, que lhe aluga um quarto ao lado, pode ser testemunha da tragédia. Caso não escape, sua morte será considerada um presságio por aqueles presentes no casamento de Clarissa. Sacrificado, como um porco, pelo bem maior da narrativa. Seu amor não vale nada no final do dia.

Márcio, Escritor. 29. Não se importa com os rumos dessa sua narrativa. Muito menos se Clarissa será feliz. Se Casablanca sofre com a sua partida. Se Eloá trepou com o noivo e inveja a amiga. Se Augusto terá vingança naquilo que clama ser justiça. Se Paulo vai virar caso social ao matar a família. Se Dona Zuleika terá de lavar o sangue apaixonado do falecido Lucas da guia. Se todas essas vidas terminarão em tragédia por conta daquele dia. No final das contas, tornou-se amoral a sua própria estória. Tudo lhe parece pequeno, incluindo ele mesmo. Não grita. Não chora. Não vinga. Não planeja. Apenas sufoca o que sente em um bando de pessoas fictícias. Acha que por brincar de artista, entende Deus. Que caso Ele exista, escreve torto pelas regras da estética, e não por uma ética divina. E ainda mais, sabe que tudo isso de merda alguma importa em sua vida. Enquanto ele tiver pés, terá de caminhar, e isso lhe parece mais absurdo que qualquer ficção ou fantasia escrita. E por mais que tente, nunca está contente com a solidão que sente. Morreria se soubesse o quão é incompetente em expressar a sua dor.

Daniell. 23. Se dá por satisfeito e acende um cigarro. Enquanto se faz de personagem em seu próprio texto, tenta definir qual é a melhor maneira de encerrar a narrativa e deixar de dramatizar a si mesmo. Cansado, finalmente decide por um final em aberto. Sabe que só assim, para si, pode acreditar em um final feliz.

____________________________________________________________________

Sim, finalmente, o esperado retorno. Andei um pouco ocupado e com alguma falta de inspiração, e por isso prometo tentar esse mês voltar a freqüência antiga de textos. Desculpas dadas, vou comentar rapidamente a nova narrativa. A idéia foi fragmentar friamente um drama, dando foco nos principais envolvidos e em algumas personagens que aparentemente não teriam relação ao evento principal. A idéia é de interconectividade, onde todos estão relacionados direta/indiretamente, incluindo a relação de um escritor fictício com esses personagens, e eu com todo esse conjunto. Poderia ser muito bem uma história, e não uma estória, sobre pessoas reais, sejam elas os personagens, o próprio escritor fictício e em última estância, metaforicamente, sobre mim. Algo pra testar os limites de até onde coisas jogadas no texto são partes intrínsecas minhas ou informações coletadas durante a vida, ou criações alegóricas sem cunho realista. Quis deixar um tom de frieza ao máximo, um distanciamento emocional para mostrar o quão comum é a tragédia no dia-a-dia das pessoas. Para se ter essa noção basta imaginar os bilhões de pequenos dramas que acontecem todos os dias com as pessoas. As centenas de milhares de problemáticas que sucedem só por se estar vivo e respirando. Por isso não pude deixar de me incluir, não por vaidade, mas no exercício de trazer mais realismo ao texto em si.

Prometo mais um para essa semana. Aguardem. Beijos crianças, e boa noite.

1 comentários:

  1. Belíssimo texto, pontos de vista perfeitamente interconectados (objetivo alcançado com sucesso!). O final aberto é ótimo, pois cada leitor pode imaginar um que lhe agrade, ou que seja levado por suas inclinações, sejam elas realisticamente depressivas ou aventurareiramente esperançosas. Um brinde aos noivos, aos cornos e à plateia!

    ResponderExcluir