quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A Queda

- "Porque a morte aparantemente é a verdade do amor. Assim como o amor é a verdade da morte"
- Bataille, "A Literatura do Mal"


O que você costumava mesmo dizer naqueles idos de 2000? Nos relatos das suas histórias malditas? Que entre um sorriso e outro, você as escondia de mim, e que não passavam de pequenos contos escritos nos papéis do cartão de débito, como fábulas descartáveis que serviam de epístolas para uma suicida? Que organizavam assim as suas fantasias de menina, e faziam com que você se sentisse morta no final do dia?

De fato, o tempo fez do seu temperamento peças de atos e gêneros tão diferentes. Movimentos dramáticos entre cenas, que criaram o exato espaço para que você desse um passo no sonho e pulasse janela afora. E nessa sua queda, o gosto do suor frio nos meus lábios, enquanto os agudos dos seus gritos galgavam em decibéis os meus tímpanos atentos. Era assim que toda noite você caía, apenas para se encontrar em lençóis molhados, e se afogar no pranto daquele pesadelo inventado.

Desse seu horror psicanalítico, de sua paralisia quimérica, eu tirava proveito do choque na minha fome em tomar você em meus braços. Na tensão dos seus tendões, que não percebiam que deixaram de estar mortos, eu pudia sentir sempre que arrancava com os dentes a libido necessária para celebrar o seu sexo. Engalfinhado entre as suas pernas, minha boca alimentava os hematomas que cresciam como flores em sua pele. Sim, você sabia que as escoriações e os machucados eram por um bom motivo, e que esses constituíam a terapia dos rasgos e das ranhuras, e os milhares de choques naturais da qual a carne é herdeira. Essa consumação, tão devotadamente querida, e que aos poucos fazia você voltar a vida com o rubor do sangue de seu rosto, serpenteava até o meio de suas pernas e, de súbito, tirava você do horror de seu sono.

É assim que aos poucos, eu trazia seu corpo até a linha pontilhada, aonde os relâmpagos gemiam na intensidade do seu retorno libidinoso. Todas as conclaves daquele contrato, assinadas em termos transitórios em uma carteira de trabalho, carimbando o fato de que seu estado era apenas um compromisso temporário. E antes que você jogasse a sua ternura pela janela novamente, eu a resgatava no silêncio austero de minha própria violência. A arrancava com os meus dentes careados, puxando-a do meio dos seus cabelos atrelados aos meus dedos.

Noites e noites assim, consecutivas, com a sua morte dando carona para o meu amor. Até aquele dia, em que despertei no vácuo da sua ausência. Naquele espaço seco e árido dos lençóis, sem saber se você realmente tinha pulado. Olhei para os lados, negando aos meus olhos a geometria perfeita da janela que estava aberta ao nosso lado. Chamei três vezes por você, e três vezes me foi negado o som de sua voz. Sim, três vezes que meu coração contou até o infinito no intervalo curto do seu nome. E quando me cansei de desdobrar as paredes lisas do apartamento, resolvi encarar o óbvio. Olhando para o abismo que separava a brisa da terra, olhei o chão da calçada ensangüentado, e logo pensei “por acaso hoje eu cheguei atrasado? Estendi a mão para outra mulher em algum sonho distante, empurrando o queixo de minha querida contra o asfalto?”.

Mas a pergunta permaneceu nas entrelinhas de um falso obituário, pois o seu corpo nunca foi encontrado. Os odores de seu cabelo fugiram do travesseiro, e os seus vestido apodreceram. Nem vestígio daquele doce mistério que se escondia em seu sexo, permaneceu. E nos minutos que se seguiram, vaguei pela terra a procura de algo que restasse para provar a mim mesmo que você tinha estado ao meu lado.

Por isso querida, depois de muito tempo, chego a conclusão que o ocorrido possa ter sido o contrário. Que talvez o buraco tenha vindo até você, e dele você nunca mais tenha retornado para estar ao meu lado. Quem sabe – e sei que você não gostaria que eu pensasse assim -, mas ás vezes imagino, que quem tenha caído no meio da noite, sem saber, tenha sido eu. Tropeçado, sonâmbulo, pela janela, em um mundo que você não está lá para me fazer um homem desperto. E se isso for verdade, eu me indago, quem poderia me devolver a vigília agora que cheguei ao fundo do buraco? Em qual corda o fantoche pode se agarrar sem ser constantemente derrubado? Não há respostas nessa meia-vida que levamos, que a cada queda nos transforma em um outro elemento, sempre mais fraco, nos deixando com apenas a metade do tempo que usou para nos enfraquecer, para repetir o feito mais uma vez.

No final, quando as minhas forças tenham finalmente me abandonado, e minha última meia-vida acabado, sei que olharei deitado na cama, para o lado, e verei a nós dois estirados, com as pernas quebradas e os pulmões perfurados, sangrando sem conseguir pedir socorro pelo ressentimento criado. Na atração de nossa traição mútua teremos ambos caídos, sem nunca mais podermos nos reencontrar no abraço perdido que nos impedia de desaparecer. Mortos e desamparados, fazendo desse amar, ensaio para a bela mentira da queda, que nos convence que não irá nos derrubar pela próxima vez.


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Misturando a idéia de Desgaste, com Sexo, Hamlet, Cortázar, Bataille e Física. Na realidade, o mórbido tema que permeia tanto esse texto surgiu em algumas reflexões sobre Ophelia, que morre afogada na peça de Shakespeare, e que traz a tona o diálogo dos coveiros, discutindo se o caso da personagem se enquadrava em suicídio. Interessado, fiz o básico de sempre: misturei temas até que o tom correto do texto ganhasse forma. Algo que ficasse no campo do sonho, do metafísico e simbólico, mas ao mesmo tempo que representasse essas questõezinhas sobre a carência humana. O movimento entre impulso e rejeição, criando toda uma ilusão. O que remete de novo a peça do bom e velho poeta inglês, que faz bem melhor do que eu, em discutir amor, morte e vingança, em sua peça de 4 horas.

E falando em Hamlet, vou propor um esquema sério: quem descobrir uma citação roubada da peça nesse texto, e souber apontar em que ato e cena está, prometo enviar uma cópia da peça para a pessoa. É isso. Boa Quarta-Feira para vocês...


2 comentários:

  1. Lindo esse texto. Fiquei à beira de lágrimas (intenção de elogio, claro).

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  2. Então, quer dizer que a gente só vai saber a relação entre amor e morte quando a gente morrer ou quando a gente se apaixonar?

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