
Começa com o cheiro de couro em seu pescoço. O suor em algum ponto distante, longe do presente, mas sem estar perdido em um futuro ausente. Tudo amarrado naquele resquício olfativo que traz a memória de volta, e faz o nosso herói relembrar qual face se esconde atrás do seu último disfarce. Ele, que foi a solidão no fio da navalha, e que agora enfrentava os seus punhos despedaçados na madeira do seu estrado embolorado, resolveu contar a sua história em detalhes vagos e inventados.
Sentou em um café decadente, encarando o cinzeiro de metal ainda quente, e riscou alguns esboços. Tentando cunhar a metáfora exata sem deixar nada de fora, retratou-se como o perfeito terrorista dos corações carentes. Mas não. Se recusou veemente em concordar com aquele esterótipo manjado de conquistador barato. Jamais ficaria contente, pois sabia que havia muitos espaços entre o intervalo das palavras que poderiam ter sido ditas. Por isso sugeriu à si mesmo que, para recapitular, deveria tentar o suicídio. Esperava ver o clichê da vida passando diante de seus olhos, desmistificando a mentira que ele mesmo construíra em seu ego inflamado, e assim finalmente relembrar o seu nome verdadeiro.
Foi em frente, de alma limpa e barba feita. Macho para caralho e persistente. Com o seu cinto surrado em volta do pescoço branco e azulado, deixou que o peso da barriga o jogasse até ao chão. E nos 30 primeiros segundos da falta de oxigenação, reviveu o pesar do homem sem sorte que ele deveria ter se esquecido.
Sua vida poderia ter tido os traços de um romance, mas infelizmente tomara o caminho de uma bula de Fluoxetina amassada em algum canto de uma lavanderia chinesa e suja. Eram 6 da manhã, e ainda estava se convencendo da existência de efeitos colaterais na masturbação matutina, quando olhou para o lado. A ereção não era fruto da empolgação, mas da ninfeta que dormia ao seu lado, quieta e tranqüila. Não se lembrava da garota ou como tinha chego até lá, mas quando resolveu espiar para ver se realmente era bonita, empalideceu de terror. Deixou a camisa serpentear no peito e empurrou o carro ribanceira abaixo, dando partida no final da rua para que não a despertasse. De tanto medo, demorou uma semana para marcar um médico, pois estava convencido, desde o momento que botou os olhos naquela menina, que havia contraído o vírus.
O prognóstico foi lamentador. O doutor explicou que ele teria que viver com aquilo para sempre. Que a natureza metafísica daquela DMT não havia sido solucionada nem pelo mais douto dos filósofos. E de fato, que ele estava fodido, e seu conselho era que tentasse conviver com a Síndrome da Sincronicidade Permanente (SSP) e levasse a vida normalmente.
Mas como ele poderia? No mesmo dia a primeira coincidência o alcançou. Fez piada de um garoto retardado e ficou três dias sem conjugar um verbo no tempo adequado. Na semana seguinte mandou um motorista no semáforo tomar no cu, e logo depois foi brutalmente estuprado por um travesti revoltado que o confundiu com um cliente que não o havia pago. Cada pequeno pecado sempre elevado a terceira casa do caralho. E após perder todas as esperanças, leu um artigo, discutindo um tratamento experimental. Radical, no mínimo. Tudo consistia em um duro treinamento em enganar a si mesmo, seguido de uma auto-mutilação permanente e a habilidade de mudar o seu rosto como bem entendesse. E após 2 anos convivendo com a doença, recolheu uma faca de cozinha e fatiou a sua face em pequenas tiras. Assim deu início a sua tentativa de cura. Enfaixou o rosto com esparadrapos, guardou consigo um kit de maquiagens e acendeu um cigarro. Com uma dúzia de passaportes falsos dentro de sua maleta, deixou sua vida antiga de lado.
Em sua primeira amnésia auto-induzida, encarnou Juan Pablo Peruíbe, o famoso traficante colombiano. Ganhou muito dinheiro repassando drogas para políticos, e com isso conquistou o amor da filha do presidente, Florentina, e uma casa de presente de núpcias em uma floresta particular e paradisíaca. Mas 1 ano depois a doença se manifestou e seu lar foi bombardeada em um exercício do exército da Colômbia na floresta em que vivia. Com a mulher morta e o dinheiro na casa, queimado, utilizou-se da técnica de auto-hipnose que havia aprendido e mudou mais uma vez de identidade.
Agora no México, tinha se tornado o Padre Anselmo Guitirrez, e cuidava dos pobres e carentes. Aos poucos as jovens moças que o chamavam de milagreiro, começaram a agradecer os seus feitos com mais do que uns poucos beijos. O tempo passou, e o jovem padre tinha ganho fama de ter traçado até a mulher do prefeito. Não tardou para que os homens se reunissem e quisessem crucificá-lo como exemplo. Fugiu assim que uma de suas amantes o notificou da canonização apressada que os cidadãos planejavam contra ele.
Rendeu-se então a uma vida pacata na Argentina, como o padeiro Diego Isiedro. Casou-se e teve 3 filhas. Vivia tranqüilo com sua esposa, Sandra, e a Síndrome não se manifestava a quase 7 anos. Foi então que, por conta um relapso moral, o seu pau começou a andar com as pernas da vizinha. Suas filhas pequenas, revoltadas com a depressão de sua mãe traída, o acusaram de pedofilia, o que levou seu rosto a ser impresso como “Monstro” nas principais manchetes de Buenos Aires.
Havia tentando de tudo e não agüentava mais aquilo. Voltou para o Brasil, perseguido e fodido. Mesmo tendo sido trabalhador, santo e bandido, a Síndrome da Sincronicidade Permanente não deixava causa injusta desfeita. A vingança era implacável e sorrateira. O tratamento havia sido um fracasso, e não havia dúvida que ele havia tentado. Assim sendo, o nosso herói tinha tomado a decisão de escrever uma biografia, um legado para todos aqueles que sofressem da mesma doença pudessem evitar os caminhos que ele havia tomado. Mas havia um problema, depois de tantas identidades, não reconhecia o rosto que via no espelho, e muito menos lembrava do nome com que havia sido batizado. Por isso o apelo ao suicídio, na esperança de relembrar no clichê do flashback a sua história.
Encontraram o seu corpo dentro do banheiro do café, pendurado em cima da privada com os olhos revirados e todo cagado. O investigador do caso não teve dúvida da causa natural de sua morte, conseqüência da SSP diagnosticada pelo legista do IML. Era mais um pobre bastardo, sem rosto e sem nome. Um daqueles que passou a vida tomando a felicidade alheia, e que no final levou aquilo que merecia. Ao menos era assim que o investigador Amoreira pensava, enquanto apagava o cigarro, vendo a vida passar do lado de fora de sua viatura. Não imaginava que dali 3 meses seria diagnosticado com o mesmo problema em um exame rotineiro da polícia. Como todos, iria descobrir que os corações que feria eram a causa de sua Doença Metafísica Transmissível (DMT), praga que crescia e se espalhava mais a cada dia. No final, para curá-la só bastava que o nosso herói, e o investigador Amoreira, deixassem de amar um pouco apenas a si próprios. De pararem de fazer da carência alheia, cama para se deitarem e depois fugirem às pressas, alimentando assim o sofrimento na solidão de seus corpos ausentes. Não tinham de ser samaritanos, apenas não tão putos e sacanas. Mas infelizmente, essa cura, de tão simples e absurda que parecia, nunca foi proposta ou descoberta por intelectual ou cientista algum, e assim a SSP, e outras DMT's, se espalharam rapidamente pelo mundo. A OMS relatou o número alarmante de 90% da população mundial infectada em seu último boletim. No final, não havia amor suficiente para ser vendido como gaze no mercado, e o povo ficou sem solução para limpar o pus das feridas dos seus corações machucados.
E assim, mais uma vez, a tristeza vinda do ego do homem reinou, fazendo de seus sentimentos o lobo que os devorou...
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ATUALIZANDO: IP banido da Wiki por 3 dias pra criar ou editar coisas. Beleza, têm o mesmo artigo da SSP aqui na desciclopédia, vamos ver se esse dura dessa vez: http://desciclo.pedia.ws/wiki/Síndrome_da_Sincronicidade_Permanente
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Querendo se informar mais sobre a Síndrome da Sincronicidade Permanente? Dêem uma conferida na Wikipédia, antes que meu pequeno vandalismo seja notado: http://pt.wikipedia.org/wiki/Síndrome_da_Sincronicidade. Antes que alguém pense alguma coisa idiota, não, isso não é uma metáfora para uma doença venérea minha. I'm fine and healthy, thank you ;) . Sendo assim, foi só uma idéia de uma estória curta que eu tive. Algo mais absurdo e fantástico, e diferente do usual. Pra relembrar que nada nessa vida é de graça - tudo que se faz, se paga. Egoísmo tem um bom preço no mercado, e só aguenta passar por isso quem está acostumado a viver sozinho. O que me faz lembrar esse belo poema do Brecht, falando do peso em se bancar a própria 'maldade':
A Máscara Da Maldade
Em minha parede está pendurada um entalhe japonês,
A máscara de um demônio maldoso, decorada com um verniz dourado.
Com simpatia eu o observo
As veias afundadas em sua testa, indicando
O esforço que existe em se ser mau.
É isso.

Genial.
ResponderExcluirGenial o texto. E essa síndrome tem um quê de pandemia...
ResponderExcluirE oficialmente, a cura pra essa doença, qual seria?
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