
Atingiu duas vezes. Uma pela manhã e outra pela noite. No seio da cumplicidade se fez invisível, de distante, e não obstante, escolheu ser seu, não meu. Armou a cama inimiga no campo ao lado, esperando pela batalha, mas logo tudo tropeçou e se desfez. Nesse embalo na balada do bêbado pistoleiro, restou a reticência nos frangalhos daquela cerveja tombada no chão. Quente e espumante, em ondas lascivas que lutavam contra a própria vida, maquiou tudo a sua volta, dos quadros até os lençóis desarrumados, desarmando a boneca de seu rouge com as reticências presentes... E o silêncio que seguiu velou em pausa pelos corpos envolvidos, esperando esfriarem seus pensamentos até o sono chegar.
A cafeteira em contraponto se mostra pronta com a luz vermelha, e a manhã faz do dia um falso cognato. As torradas e os monstros sentados, passando a manteiga com a faca e rezando para o pão não cair no chão do lado errado. E entre cada um deles, as mesmas reticências impondo os seus malditos espaços. Um ponto para cada vazio inacabado, dando tempo para três sentenças, vamos, seja rápido! Mas o tempo, que fez ausência daquilo que não foi dito, se fez sentido, como o cadáver que sente a falta do coveiro ou como o cientista de Trout, que veio do futuro, encostou a cabeça no peito de Jesus e descobriu que o pobre diabo morreu antes de ser colocado na cruz.
E como todo bom homem sabe, as reticências uma vez quando postas, elas continuam a nos assombrar. A cada passo, um ponto. Outra cruzada de perna, ops, um espaço novo. Deixando seus buracos para um diálogo morto, não há nada que se possa fazer. Acordar, barbear-se, olhar-se no espelho e escovar os sisos ocos, assim quieto, debruçado em reconforto na janela esperando a vida passar. Sim, esperando, como o coração da criança que dispara com o susto dos rojões no 7 de Setembro. Dia da Independência, que começa quando se assume a solidão, e que termina depois recolhendo os cacos do malfadado Ano Novo.
Todos têm os corcovados desses pontos para carregar. Da vizinha que é viúva a Poliana que bebe e pula, há de se convir que não há gente grande sem uma carranca ou uma corcunda digna de se levar pra passear nas ruas. Só é necessário primeiro compreender que existe algo no número três. Algo que tenta se equilibrar, mas que sempre pende para o lado errado, dependendo da ponta em que você escolheu ficar. Ela puxa, amarrada em dois triângulos os desejos aflitos de todos, entre a luxúria, amor, rejeição e dor. Cede e se levanta de um lado enquanto cai o outro. É a vida, você há de concordar, não se pode sempre ganhar.
E falando nesses casos alheios, lembro de você, e não de vocês, falando para mim de família, sangue e povo. Suicídio em Paris, romântico, detalhado no diário e encerrado no legado hereditário que me levou a crescer sem o amor fraterno que eu merecia ter. E por isso penso nas reticências que você me contou, sabendo que a ausência para você se fez materna de corpo, e não tanto do espírito violento presente de um pobre coitado que fez você sofrer. Assim imagino quantos tantos outros carregam essas e outras reticências que não se fazem ver. Se pressente, sim, como o vento que faz de taciturno o som ausente daqueles que deveriam estar ali para mim e para você. E com essa presença, nos cansamos mais e mais disso tudo, das omissões que criamos para cair nos espaços desses pontos que deveríamos utilizar para concluir. Faltamos com nós mesmos, como eles que ali não estiveram, perdidos em uma infância que nos fez cedo crescer. É isso querida, estamos no terceiro ponto, com medo de tropeçar sem saber o que nos aguarda depois que a reticência ficar para trás, inseguros de deixar tudo para amadurecer. Somos como todos os outros, ainda crianças aprendendo a amar e a viver.
Sabe, e devo lhe dizer, descobri que essas reticências também tem um rosto. Talvez você não reconheça as suas, mas as minhas, aparentemente mais novas, têm a mesma face com que eu me assusto todos os dias ao encarar as covas que se cavam sozinhas em meus olhos. É igual, um sósia, doppelgänger, com a exceção que ele só sabe falar em alemão. Mal consigo intervir entre a vigília e o sono nesse pesadelo cartesiano, quando ele começa a citar Heine: Was äffst du nach mein Liebesleid? Não é a minha culpa, digo. Eu tento, tento tanto... Mas ele não entende, meu outro, ele é tão inocente, tão novo... Bobo, muito bobo. Logo vai aprender que eu não o humilho ou o imito, apenas me repito no discurso que ele um dia vai recitar para o mesmo reflexo morto.
Maços vazios e cinzeiros cheios, papéis de débito amassados no bolso, sinal de trânsito, gente chata e de ressaca no sufoco da cidade abarrotada. A essa hora é preciso carregar a palavra, e deixar o vácuo no corpo. Os espaços permanecem, mas a palavra invade e transforma, esclarece o pensamento pobre e me dá ganas para um novo passeio antes de enlouquecer. Seria mais fácil se a interrogação se apaixonasse pela resposta antes delas se conhecerem, assim não haveria os tropeços das palavras, e as reticências se fariam desnecessárias ao menos uma vez.
E no final, sei que não conheço seus pontos, seu rosto, nem mesmo reconheço quem você foi daquilo tudo que lhe foi feito. A chuva chegou antes de você. E eu me pergunto, quem cantará o seu nome quando você morrer? Quem se lembrará não só do seu rosto, mas o de todas vocês, quietas, a dormir feito Julietas a espera de um romance novo? E lá vêm as reticências mais uma vez... O que posso fazer se não posso viver sem elas? Ou seriam elas que não conseguem terminar suas frases sem a minha presença? Não, não me atrevo a me enganar mais uma vez. As reticências ficam! É uma exigência para que eu viva e possa escrever. Como meus cigarros e o café preto, é um vício tosco, escroto. Por isso vamos fingir todos que somos felizes e dar os braços. Sem ressentimentos, amigos, sem nada...
Esqueçam as últimas linhas, está tarde, e na realidade é melhor nos deitarmos. Esqueçam tudo, deixem para lá. Amanhã, um dia novo. Deixemos as palavras descansarem, fazendo a sua mágica em nossos corpos. Elas curam, mudam a realidade aos poucos, e acima de tudo, criam o conforto que nos dá o atrevimento de nos enganarmos mais um pouco. Pois é preciso escrever muito para se mentir um pouco. E, quem sabe assim, acreditando nessa bobagem dos três pontos, a vida se revela um sonho?
E até mentindo eu sei que a verdadeira mentira eu omito. Há sempre um fim amigos, e mesmo que nada pareça terminar, as reticências se vão e fica Ele sozinho para o texto terminar.
Sempre Ele, o único e solitário Ponto Final: .
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Quem acha que eu fiquei trabalhando com as rimas, se engana... O texto praticamente saiu assim, sem precisar modificar. Prometi um texto narrativo, mas que se fodam, eu não posso fazer nada, cada texto exige algo de mim. Além do mais, quem estiver curioso, o poema do Heine não tem nome, mas foi musicado maravilhosamente pelo Schubert, e batizado de Der Doppelgänger (termo utilizado na crença folclcórica alemã que relata que antes de morrermos, uma duplicata nossa se faz presente no momento de nosso falecimento. Também relacionado com a crença que no mundo existe um duplo nosso que anda, trepa e vive como nós, e que inexoravelmente estamos ligados a ele): http://www.youtube.com/watch?v=fKVnL9JvuO8. Quem tiver tempo, vá atrás e dê uma olhada nas traduções do poema.
Sobre o texto, acabei fazendo uma série de conexões tão rápidas entre as imagens dos três pontos, a incomunicabilidade, as inseguranças e os vazios, que saiu esse panfleto sobre o peso daquilo que é extrínsico e silencioso em todos nós, mas que nos une nessa mesma religião da palavra não dita. Schopenhauer dizia que a compaixão era o sentimento que ligava todos os seres humanos. Eu discordo. Defendo que o que nos liga é sofrimento posto no peito, os segredos de nossa vulnerabilidade. Resumindo, essa nossa solidão que tão pouco conseguimos colocar em termos. A compaixão é o segundo passo quando se reconhece esse fato.
O texto é ferida aberta contra todas essas pequenas conexões que se montam sem percebermos. Grito impertinente para tentar por termos e dizer que sim, todos estamos na mesma merda, e é foda pra caralho viver. Foda mesmo. E por isso, só de reconhecer esse fato, já é um começo para deixar todos esses medos de lado e cada um se aproximar do outro, deixando de reclamar como as coisas são. Tudo se resume aos momentos. E meus pêsames para todos nós, já que nascer, inexoravelmente, implica em morrer sem saber o que vai acontecer. Por isso, um dia de cada vez, tentando perceber mais daquilo que não foi dito, do que aquelas outras coisas que tanto foram repetidas...
Fim do frenesi da escrita. Todos os termos estão aí. Concordem ou discordem, o problema é de vocês. Apenas critiquem e discutem, que já me farão um pouco mais feliz.

Como sempre muito bom. Começo um mês de uma forma diferente após ler e reler suas reticências. Como você mesmo disse ainda somos inseguros de deixar tudo para amadurecer.
ResponderExcluirContinue com o bom trabalho.
Abraços
o melhor texto do blog, até o momento. muito pelas rimas não-propositais. e como a noção de compaixão (exacerbada, desprezível ou indiferente) é intrínseca a noção de percepção do sofrimento alheio, você e schopenhauer concordam sim. a ordem dos fatores não altera o resultado.
ResponderExcluirabraços, xará!