
Paula colocou a mão sob o ombro de Ignácio. Enquanto ele se debruçava para pedir uma cerveja no balcão, ela passou o indicador com carinho sob as suas costas machucadas.
- Essa luz faz bem para o seu rosto – disse sem sequer olhar para ele. Apenas desenhou a silhueta de como imaginava o perfil que se formava entre a fumaça de seu cigarro. Era o seu homem, e naquele exato momento, tudo o que sempre precisara sem saber.
Ele, sentindo a mão de Paula repousando em seu ombro, entrelaçou seus dedos nos dos dela, em seu tipico silêncio austero e raivoso. Ignácio a amava como um touro. Ofegante, só perdia o controle quando a noite fazia do copo um amigo. Tinha dificuldades em dividir o seu mundo, e por isso tentava dizer tudo a ela através dos seus gestos. Falava com a mão. Miró, Matisse ou Man Ray, ele conseguia expressá-los apenas esfregando a pontinha de seus dedos contra o pescoço de Paula.
Eram tão diferentes. Ele, argentino, odiava o tango e a poesia do seu país. Ela, brasileira e escritora, nunca dizia não para uma dança e chorava ao ler qualquer belo verso. Paula achava da vida um sonho, já Ignácio acreditava que tudo não passava de um absurdo. Eram tão opostos que quando se conheceram em 1949, não houve paixão. Apenas medo e tensão. Primeiro quando ela começou a tirar polaroids de Ignácio caminhando pela rua e depois por parte dele, defendendo a honra de Paula quando um homem fez um comentário obsceno sobre a sua saia. Mas não obstante, ficaram amigos e tinham vários gostos em comum. E com o tempo o touro se amansou e aprendeu a amar aquela menina daquele jeito bobo e palhaço, que quem o conhecia dizia que nunca vira tantos sorrisos de quina em seu rosto. E se tivesse de explicar porque andava rindo pelas ruas, diria apenas:
- É porque descobri, para minha alegria, que não estava mais dormindo ao acordar do lado dela.
Gabriel, o enfermeiro, ouviu essa história da boca de Paula uma semana antes dela falecer. Passara o resto da semana pensando o que era amar. Se aquela mulher velha e acabada, de olhar triste e cansado repetia aquela história, como se fosse a única coisa boa a se recordar, onde a vida o colocava? E por isso, pouco a pouco, lembrou-se dos últimos 3 meses de pratos quebrados e lençóis sujos pela cafeína e os cigarros. Dos arranhões nas costas e os amassos atrás da porta do seu quarto. Lembrou-se até se esquecer do porque caminhava naquela exata direção, sem notar o chuvisco ou ambulância parada com o empresário taquicárdico. Tropeçou em Deus e no Diabo, caindo em uma questão retórica que o fazia pensar o que havia feito de errado. E repetiu para si mesmo baixinho, como resposta:
- Não era pra ter sido...
A partir desse dia só se vestiu de preto. Uma outra família que o contratou para olhar um velho senhor, o mandou embora, depois de tanto reclamarem que o idoso delirava, achando que Gabriel era a própria morte. Pouco a pouco, descobriu assim o segredo da invisibilidade – se enfiava no meio das multidões, sem ser notado, e desaparecia como um vulto negro entre aquelas centenas de rostos. Ele sabia muito bem quem procurava. Brincava de jogo-da-velha com o acaso, se escondendo entre as vigas e as colunas da cidade na esperança que ela aparecesse mais uma vez. E quando não fazia isso, esquecia como era viver no presente. Voltava para aquela cabeça pesada em seu peito, e as noites passadas em claro. Descobriu também que queria ser à prova de balas, e que falar demais ou se calar davam na mesma. Ouviu falar que ficar quieto e observar traz conhecimento. Sabedoria talvez. Mas e o amor? Não bastava andar ou ficar parado, pois o mesmo fugia em passos largos, não deixando rastros para onde tinha ido viver. Talvez ali no vizinho, ou na padaria ao lado. Ou, quem sabe, ido com aquela moça de saia vermelha, ou com o traficante que trabalhava na boca do bairro. Parecia mais que o amor fingia se esconder nas luzes da pista, nos narizes dos cocainômanos ou nas relações espontâneas e vazias. Se maquiava, feito Pierrot o palhaço, deixando o palco sem que o público visse o seu espetáculo.
Mas a memória dela continuava a atormentá-lo. Rápido, imprevisto e sem contrato. Entre risos, e encontros não estipulados, aquele jogo o fazia sentir seguro que ela seria sua. Mas então, veio o dia que ela não quis mais vê-lo. Talvez apenas como amigos, mas não mais entocados feito gatos que se encolhem um no outro procurando da chuva fugir. Sem mais beijos, massagens ou abraços. Fez-se o ponto, e saiu o pobre Gabriel desse conflito derrotado.
E no final do dia, enquanto examinava o ponto de fuga do horizonte desaparecendo do alto do seu apartamento, renunciou a tudo por um imensidão opaca, como uma orquestra que cessa de tocar e deixa aquela última nota ecoando nos ouvidos. E nesse momento, abismado com o tamanho do vazio em seu peito, repetia:
- Não era pra ter sido... Não assim...
Pobre Gabriel. A única coisa que esse moço queria, como Paula e Ignácio, era ser feliz. Ao menos com ela, quem sabe, poderia ter sido assim...
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1. Para lembrar se eu ainda sei escrever em terceira pessoa.
2. Para provar que eu ainda sei respeitar o formato de uma crônica.
3. Porque vidas aleatórias realmente influênciam a nossa.
4. E pra finalizar, porque nessa vida, se alguém conhecer uma Paula e um Ignácio de verdade, me avisem, porque só acredito vendo.
É isso, mais uma estória de corações partidos pra vocês crianças... Aproveitem o final-de-semana.

Também só acredito vendo. Aliás, talvez nem vendo. Não se sabe mais o que ainda é suficiente... Também preciso ver se ainda consigo escrever em 3ª pessoa.
ResponderExcluirAcredito sim. Provavelmente não nesse formato, de preferência, e provavelmente não tão cedo também, mas acredito. Só não acredito que seja indolor, já dizia Vinícius que amor só é bom se doer.
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