quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Balada de Alonso Antunes

Começou pela fome. O desejo da mordida profunda em sua carne, seguido de tudo aquilo que fazia o seu sangue ferver. Depois, podridão e morte na mentira que se tornou verdade pelo simples poder da sua palavra. Assim deu início a última aventura de Alonso Antunes, que fez de sua vontade uma corcunda, e dela usou como molde para criar o seu derradeiro monstro libidinoso.

Ceticista, celebridade, cientista do oculto, luciferiano, fumante e artista. Algumas vezes eleito pela Times como o novo Messias, Alonso conhecia a arte do suicídio social e da reencarnação nominal, podendo trocar de rosto e trejeitos em um simples movimento. Era soberano das mentiras, o léxico de tudo que fosse sinônimo de imperfeito, capaz de fazer cada verbete soar como certo através do simples exercício de sua vontade teimosa. O Buda retórico dos nossos tempos.

Mas dobrar a realidade daquele jeito tinha um preço. Vendia no mercado os melhores pedaços de sua consciência por alguma amnésia momentânea que o permitia ser o pistoleiro mais corajoso do puteiro. Só dava valor a algo naquela vida, sua Paloma, Palomita, a filha imaginária que nunca teria. Criou-a um dia, enquanto meditava sobre um futuro paralelo, em que se casava e vivia a vida de um homem de família. Alonso tinha esse passatempo de se dar o luxo em não viver o presente, conversando com os fantasmas de uma existência impossível, inversamente proporcional aquilo que merecia. Era a sua mágica preferida, a de ter várias vidas e curar algumas feridas em alguns minutos no calor da brisa.

Certo dia, a filha que não existia, Palomita, perguntou para Alonso:
- Quando o senhor vai morrer? - nosso herói que viveu apenas pelos seus pecados, colocou a mão no coldre e deu uma baforada em seu cachimbo. Tinha 54 anos, mesmo que não passasse dos 24, e se sentia mais velho que as arestas gastas da areia que raspava em seu calcanhar machucado. Tirando o tambor do revólver em silêncio, mostrou a sexta câmara para Paloma, a única que não estava vazia. Apontando para a mesma, disse:

- Você vê essa bala minha pequena? É a palavra certeira que vai me derrubar. Um dia irei puxar o gatilho contra o coração e tombar. E nesse dia, vou deixar a minha fama para trás. Alonso Antunes será apenas uma lenda na boca dos homens e nas pernas da mulheres.

- Mas papá, e se eu abrir o seu peito com uma navalha? Retirar do meio das suas costelas quebradas a palavra machucada? Trocar tudo por um beijo, que faça o seu coração voltar a bater, como a bobina de um toca disco quebrado, que pula a música, mas que deixa o suspiro do cantor aliviado? - Alonso se calou. Era a hora de sua última aventura, e por isso se limitou a beijar a testa de Paloma. Ela amava o seu pai, mas não entendia o embalo do delírio em que ela existia. Ele que era o falso profeto, que matou tudo que amou, queria viver uma última melodia, e deixar o cantor gitano chorando pela sua triste vida.

Cuspiu nas mãos e limpou o chapéu. Tirou a areia das botas gastas e negras. Se vestiu como o padre em seu próprio enterro. Era um monstro. Um monstro. E por isso iria devorar as bocas que cruzassem o seu caminho. Beber dali, onde as línguas travam guerra, entre os beijos e sussurros de uma última noite. Viu naquele alvorecer uma despedida, e fotografou tudo o que podia para não se esquecer daquele dia. Duelou contra a sombra na parede, e dormiu nos pés daquela garota como um cachorro até o amanhecer. Sua juventude lendária tinha dado lugar ao cansaço. Entre as suas vitórias, apenas entreviu que aquele jogo caminhava para a sua aniquilação. Escolheu então que fosse com as suas próprias mãos. Estava farto dos corações alheios e das conquistas retrógradas, que se alimentavam do esquecimento assim que ele saia por aquela porta. De fato, cansado de pagar por algo que nunca receberia de volta.

Agarrou-se a esse acordo, e em três dias bebeu como o diabo, descobrindo o que era o desprezo no silêncio dos seus atos. E depois de acariciar tantos cabelos, inventou a morte, que por acidente, veio visitar a um amigo antes que ele. Ela usou o companheiro como exemplo, para que se lembrasse que ainda vivo, poderia fazer diferente. Que talvez, apenas talvez, se esclarecesse as coisas, Alonso poderia redimir tudo que havia feito. Mas no fundo sabia que nada havia mudado, e levando o revólver no peito, deu um último beijo no seu reflexo cansado. E antes de fechar os olhos, lembrou-se das palavras do escritor colombiano, maldizendo a si mesmo: “El corazón tiene más cuartos que un hotel de putas”.

E foi assim que morreu o grande Alonso Antunes, o Barão dos bares, o caçador de amores, que deixou de legado apenas alguns arrependimentos baratos. Dizem que o pouco que restou dele continua a caminhar em algum canto, em luto por todo esse confronto. Que limpou a sujeira do casaco, e olhou para trás o estrago de seu coração, brindando pela vida daquele personagem. E depois de enterrá-lo na soleira da porteira, cansou-se de seus troféus, de seus ardis mágicos. Por isso limpou a gaveta e guardou o revólver enferrujado entre as cartas de Tarot que prediziam esse dia a tanto tempo. Pendurou o chapéu, como lembrança do quão fartos todos estavam de seus jogos, de seu ego mentiroso, e depois, visitou o amigo morto, deixando um maço em seu epitáfio mal escrito, em sinal de perdão pela ficção que o havia matado. Mas sem os espaços para as palavras caminharem no seu passo, pensou se deveria ter dito algo. Se no final, sempre agimos errado. Ou que os corações são crianças que se esbarram a noite, e se sufocam sem dizer uma palavra. Mas o túmulo permaneceu em silêncio, velando a resposta para aqueles mistérios que permaneceram sem solução. Ficaram as dúvidas. Ficaram os dois...

... e a avalanche de incertezas que se seguiu e os arrastou.

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À aquele morreu e que se foi em silêncio. À aqueles que vivem e permanecem também em silêncio. A tudo que definha e morre sem saber porquê. Aos enganos e a incompreensão, seja dos mortos ou dos vivos. Aos arrependimentos e todos os seus mistérios. E Ponto.

Deixo esse post com mais um texto de autoria própria:

É assim que no silêncio da morte,
O corpo velado se vai,
De sorriso vestido e copo na mão.

Seu cigarro se apaga,
E o amigo chora sua ida,
com a fumaça no peito mastigando o pulmão.

Chega a quarta-feira, e a rotina caminha,
Criatura maldita,
Que faz de minhas rugas, ranzinzas.

Chega, quarta-feira. Chega. Chega dessa vida.
Besta faminta,
Que cala a todos que respiram.

Chega, quarta-feira. Chega de ferir esse coração.
Filha da ira,
Rainha da eterna presunção.

Chega de me lembrar do escritor,
Que dizia que em vida,
a melhor maneira de se morrer
é com a lembrança de um grande amor.


3 comentários:

  1. Já disse. É a melhor coisa que já tive a oportunidade de ler das que você escreveu. É pura babaquice falar isso de uma pessoa que escreve, que tem uma prole grande, mas é sincero, realmente achei um trabalho cativante, com uma formula cativante. Essa coisa metafísica de realidade paralelas e com fantasmas realidade tão intensas é de fritar os miolos. And I really dig it.

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  2. Os dois L's funcionam muito bem pra ti. Se fosse Daniel não seria a mesma coisa que Daniell.

    No mais, já disse que alguém nesse blog escreve de uma forma muito afudê?

    Se não, desculpe o atraso, mas falei agora.

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