terça-feira, 29 de setembro de 2009

Nas Tardes de Domingo

As cascas brancas e partidas entre os dedos, livres de seu conteúdo no paradigma de mais um café-da-manhã. O calor da fritura na frigideira lisa, e as meias 5/8 bregas e beges aquecendo suas pernas lisas em uma manhã fria. Os livros e a solidão de um mundo inteiro para encher o seu pequeno apartamento. No bolso, para dar sorte, uma caixa de fósforos, e dentro dela, um anel de prata com os dizeres em latim: “Para Bellum”. Em cima da mesa, folhas amareladas de Mallarmé se debatendo furiosamente em direção a uma morte prematura, e que apenas descansam quando ela resolve fechar as janelas. Quietas, permanecem as palavras sublinhadas com uma caneta preta esferográfica, por uma pessoa anônima e claramente transtornada: “Je ne viens pas ce soir vaincre ton corps, ô bête / En qui vont les péchés d'un peuple”.

Na pequena bolsa de cor creme, o compacto resumo de um universo feminino. Maquiagem, papéis vazios de bala e seus absorventes surrados, escondidos. O sutil contraste no toque de uma mão gelada contra o pescoço enquanto a outra segura a caneca quente de café preto. Ao seu lado, a gata siamesa desarrumando o jogo da Rainha desarmada que quer devorar o Rei adversário. Os pequenos contrastes da vida de Bianca, marcados e assinados nos detalhes de mais uma manhã chuvosa de domingo.

Sem me dar conta, fantasio seu olhar se rendendo em direção a janela. Os ovos já fritos e quentes no prato, esfriando na porcelana branca, enquanto o fantasma do homem que ela expulsou de sua cama perambula pelas memórias após o calor da noite de sábado. Toda imensidão que a reconforta na sensação em estar sozinha finalmente. O silêncio na canção da chuva contra o vidro das janelas. O silêncio, Bianca. E mais nada.

O súbito assalto da vaga lembrança do sexo que ainda faz as suas costas brancas arrepiarem, tapando os buracos da estrada de seu coração pelo tempo que dure aquele feriado. Sem os acidentes de corpos desgovernados e capotados, resultando nos velhos traumas de um amor fraturado. Apenas a sensação térmica que equilibra, e o movimento entre os extremos que a afaga com o pensamento de que apenas basta esperar. Sim, esperar, Bianca. Por algo melhor, eu insisto.

A tarde passando por ela, e ela esquecendo que logo, a qualquer momento, a noite há de se aproximar. As cascas brancas e partidas na pia. Os ovos fritos e frios no prato, abandonados pela metade. As meias 5/8 rasgadas e os livros com suas frases, em mudo mistério, todas grifadas e não lidas. E seus olhos verdes contemplando a satisfação no vazio que reina em sua tarde nublada. O vazio, Bianca, esse que tão poucas vezes é bom e faz sentido. Que preenche e persiste, e faz com que tudo perca o sentido. Tão vazio, que traz esperança em seu silêncio tardio. E ao mesmo tempo tão calmo, Bianca, mas tão calmo, que faz você chorar, como uma tonta alegre que finalmente se dá conta do que na vida é necessário para viver.

E eu insisto nela. Em Bianca, eu quero dizer. Me pergunto se vive no número 23. Ou, quem sabe, é a mulher de salto-alto que escuto caminhando de madrugada no apartamento logo acima do meu. Evoco toda uma memória que não existe, nessa possibilidade absurda que ela esteja atrás de alguma porta desse prédio, escondida em uma das vitrines refletidas no edifício espelhado que se ergue em frente a minha janela. Ou quem sabe mais além, em outra cidade, sem faltar em caráter ou detalhe que eu aqui retratei.

Hoje, foi ela que inventei. Amanhã, talvez, fantasie com outra que não tive ainda a chance de conhecer. Outra que também me faça companhia na próxima tarde solitária de domingo, contemplando comigo a água que escorre silenciosa pelo vidro. E apesar de perceber que há uma estranha luz que se firma entre as nuvens dessa chuva fina, fazendo dessa minha tarde tão triste, sei que hoje é um dia lindo. E sabem porque? Porque hoje foi o primeiro dia que imaginei em conhecer alguém como ela. Como Bianca. Pois acredito que ela realmente exista e respira, mesmo que escondida dentro de um desses corações vazios que ainda estou para cruzar em alguma esquina de minha vida.
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E o trabalho de escritor fumante não é fácil quando acabam os fósforos e os isqueiros. Só sobra o fogão na puta-que-o-pariu para acender o cigarro. Mas apesar dos desafios homéricos, mais um texto completo. Para quem está curioso, o poema de Mallarmé citado aqui, é o famoso "Angústia", que tem uma ótima tradução do Humberto de Campos (trecho aqui citado traduzido por ele: "Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela /Que encerras os pecados de um povo"). E a frase em latim é do provérbio "Si vis pacem, para bellum" ("Se você quer paz, prepare-se para a guerra").

Saindo um pouco da linha fantástica dos últimos textos e voltando para algo mais realista sobre os afetos das pessoas, essa é a estória de um cara que fantasia com uma mulher que pode muito bem ser real, e estar em qualquer parte do mundo. O mundo das milhares de possibilidades, do improvável ao cruzar a esquina de casa. E tão real, que talvez alguma garota nesse mundo tenha tido um domingo exatamente igual ao que eu descrevi. É o inesperado, a esperança em saber que as coisas são tão absurdas, que essa mulher que ele imagina, pode até mesmo ser a sua vizinha. Isso não é pensamento positivo e imbecil, apenas a conclusão da multiplicidade de possibilidades, positivas e negativas, que podem simplesmente se revelar a qualquer momento. Basta imaginar para que a possibilidade do objeto proposto tenha alguma chance de existir, independente do quanto absurdo a coisa seja... Esse é o verdadeiro poder do tonto que escreve: criar caminho para acreditar naquelas coisas que as pessoas acham ser tão improváveis que nunca vão acontecer. Exagerado? Só pensar em Julio Verne escrevendo sobre ir para Lua com algo semelhante a um foguete, muito antes de se imaginar que isso poderia ser possível.

Pensamento positivo é coisa de auto-ajuda, e isso daqui é realismo em um grau de 'possibilidade'. Probabilisticamente comprovado, eu garanto. Afinal, mesmo que as chances sejam de 1%, ainda é uma chance, não? O importante é saber que pode acontecer, só isso... E já está de bom tamanho.


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