
Já fui escritor certo dia, mas abandonei a profissão, pois a escrita se tornou em parafilia sádica sem prazer em sua vazão. Eu, que antes escrevia, fazia de meus pontos uma sentença, e de cada verbo um fruto para um debate. E assim mesmo, apesar do choque de consciência que conseguia causar em meus leitores, penso se algum deles realmente se mobilizou perante os meus personagens. Algo radical, eu quero dizer, não algumas lágrimas em um lenço descartável e sujo. Mais como uma petição ou um abaixo-assinado - “Pelo Fim da Caça as Baleias Brancas”, com dez mil assinaturas enviadas diretamente para a casa de Melville, ou um pedido formal para Burroughs ceder a sua imagem para uma propaganda com os dizeres “Diga Não As Drogas”. Afinal, que adianta se compadecer pelo personagem se não se faz nada para mudar o seu destino?
Imagino eu, que um dia fui escritor e contador de estórias, sendo o protagonista da minha própria e(hi)stória, coadjuvante em tantas e figurantes em muitas outras. Logo, entendo a limitação do meu poder sob aquele que me descreve e as artimanhas que o leva a tão poucas vezes se compadecer de mim. E digo mais, não o julgo mal por isso. Jamais. O que um filho de uma puta poderia falar mal de outro? Pelo contrário, não só deixo meu ressentimento de lado, como tenho pena do pobre diabo, pois tudo que ele fez comigo já lhe fizeram de forma igual.
A fórmula é simples: o primeiro passo é fazer o seu personagem crer no seu livre-arbítrio. Isso manipula o pequeno e ignorante protagonista a tomar decisões em que a escolha é obvia de acordo com seu comportamento ou fraquezas morais. Se tratando de um romance, o resto é fácil. Basta agora amarrar uma trama sutil em que o herói não veja todas as forças invisíveis em operação, até que ele perceba tarde demais a merda em que se enfiou. Logo realizará, para sua tragédia pessoal, que aquela decisão lá atrás, nas primeiras páginas do livro, sem nenhuma relação a primeira vista com o momento presente, deu início a um efeito-dominó que ele não possuía controle algum. Assim estripamos desse pobre bastardo qualquer prepotência ou concepção que ele poderia controlar o seu destino.
Como toda boa estória, seja uma comédia ou uma tragédia, é preciso um momento dramático antes do gran finale, que irá decidir de uma vez por todas se estamos contando uma estorinha alegre ou triste. Nesse ponto vêm a grande linha que separa em dois os tipos de escritores: aqueles que se compadecem de seus personagens e aqueles que os aniquilam. Claro, existem finais em aberto, mas assim mesmo eles estão mais próximos de um final feliz do que uma tragédia. Feliz porque o escritor não teve colhões de exercer a sua vontade final e resolveu devolver o poder ao seu protagonista. Mas não julgo mal essa espécie de escritor. Normalmente são conscientes de que o mesmo é feito com eles. Preferem permanecer ignorantes tanto quanto suas criações em relação ao seu próprio desfecho. Alivia a culpa daquela facada, da morte de um amigo ou de um amor mal resolvido que o escritor fez aquele palhaço passar.
Mas o maior dos males que se pode fazer é dar consciência ao personagem de sua própria condição, como foi feito comigo. Um efeito colateral eu até diria, já que eu fiz uma vez o mesmo. Na página 26 de meu último livro, o herói se tornou consciente de seu estado ficcional. Eu, não contente com isso, arranquei-lhe um braço, trouxe uma namorada morta de volta, e quando finalmente resolvi dar um descanso para que respirasse por 5 anos de felicidade, matei a sua família e o tornei em um bicho. Depois de arrancar todas as suas patas, a aranha finalmente parou de se debater e aceitou o seu destino. Matei-o na penúltima página, muito para a sua felicidade e para a conclusão de meu livro.
Estava quase fechando a venda dos direitos da obra quando resolvi jogá-lo fora. Me tornei complacente e paranóico e pus um fim em sua existência. Como eu poderia viver comigo mesmo sabendo quantas alegrias e tragédias eu causei? Quantos estupros, famílias partidas, casamentos arruinados, crianças deformadas eu criei? Como descrever os clichês de minha vida refletidos através de uma metáfora na vida de um idiota qualquer?
Em uma espiral sem fim, um tolo distorcendo a sua vida de merda na vida de outro tolo. Uma corrida de revezamento aonde o sofrimento é passado de mão-em-mão. Aprendi tudo isso da pior maneira, e como meus personagens paguei o preço de minha própria língua. Caí nas mesmas armadilhas, me debati exatamente como eles se debateriam. Profetizei o próximo capítulo de minha estória em uma sala de espelhos frontais que refletem a vida em uma linha infinita. A genialidade e simplicidade das tramas entrelaçadas que amarram e me desviam, eu, o protagonista de minha vida, do seu verdadeiro desfecho, me fazem rir. Fez me acreditar que a moral da estória já me fora ensinada muito antes do que na realidade seria.
Mas como sou o boneco de outra estória, diferente daquela que eu escrevi, farei diferente do meu fantoche. Não gritarei em sinal de dor ou reprimenda ao meu escritor. Mordo a minha própria mão, mas nem mais um suspiro ou uma lágrima ele terá de mim. Não surtarei com os meus coadjuvantes. Não afirmarei algo tolo, dramático ou estúpido. Não cavarei 10 túmulos para que o leitor pense que o herói dessa estória é fraco, indagando-se em qual dos buracos ele irá se enterrar. Não tomarei o nome da retaliação em vão, pois no final, tudo desmorona, se compadece, levanta para finalmente se abraçar. Tudo é justaposto, rearranjado, e mesmo a falta de uma moral nessa estória, será uma moral de que nem todas as estórias têm de possuir uma. Que nem todas as coincidências, mensagens foram feitas para comunicar, mas desconstruir a vida e se rearranjar por algum motivo maior.
Mesmo que meu escritor me tente, o final desse livro será meu. Ele perceberá o braço que não se quebra com a queda, e se tiver algum bom senso, verá que quem se deita com o diabo no final do dia sou eu, e que todos os desenlaces de sua genialidade são tão da dele quanto da minha. Por isso, como toda boa estória, não precisará de um final feliz, mas uma conclusão súbita e sábia, que reconcilie o escritor com sua escrita.
Dessa maneira o verbo permanece em paz e o livro é concluído. O personagem vive, de uma maneira ou outra, para ver mais um dia nascer e imaginar qual seria o melhor título para tudo aquilo que se passou. E logo que o escritor o deixe sozinho, saberá como melhor escrever o seu próprio caminho. Sendo assim, eu mesmo ponho para descansar as letras, e espero em tranqüilidade os anos porvir e suas próximas estórias. Deixo as lágrimas para as crianças, e me seguro no que resta do meu papel de herói.
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Acho que o texto mais 'clássico' até agora. Só trabalhando em cima da metáfora, em um contexto mais reflexivo. Os últimos parágrafos me lembraram de um trecho de Blake:
"I shall not cease from mental fight,
Nor shall my sword sleep in my hands"
Tem algo de quase religioso o texto... Acho que poderia ser resumido na realidade entre aqueles que acreditam que existe um sentido pra tudo na vida, ou aqueles que acham que o randomismo é capaz de operar coincidências e milagres. Prefiro me enquadrar mais entre as pessoas que acham que nada na vida é de graça, tudo tem um porque, irrelevante de uma existência superior... É apenas a natureza compensando os pesos e as densidades das decisões. Como eu sempre digo: justo. Mesmo que a sensação não seja de justiça em si. Seria mais de uma justiça em que a balança vai de um lado para o outro para permanecer equilibrada só por alguns segundos.
Ok, muita metáfora de merda. Parar com a divagação filosófica de boteco. É isso. Boa Noite.

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