terça-feira, 18 de agosto de 2009

3 Tigres


Faça o que puder, mas não deixe de escutar os Três. Aqueles que fazem do círculo uma regra, e que ronronam suave para vocês. Meus Três pequeninos Tigres Tristes, de pé ao meu lado, que ouvem o fumo, o álcool, ao invés do verbo saudável e claro. Que prendem as presas no cigarro, e deixam de chamar a sonsa de ontem para jogar um papo e tomar um café na padaria ao lado.

Os que cravam os dentes em uma boca, com hálito cheio de medo por não poder mais amar. E isso só depois da meia-noite, quando os Tigres espiam entre os espaços vazios dos corações sofridos do bar.

Eles que caminham entre os suspiros aflitos daqueles que mentem ao rir, através dos sorrisos que se foram sem se despedir. Que estão entre os braços que se afastam, e que em vão se seguram nas pontas secas do asfalto, deixando a pele rejeitada a transpirar em choro pelo outro que partiu. Expostos, feito ossos, rasgando a pele ao bater no chão, tremendo na esquina e vulneráveis ao vento sem ninguém para os cobrir.

Primeiro escute os olhos daquele que nada diz, e regurgite a ele palavras sobre tudo que o contradiz. Desse Tigre mudo se faz de Deus o Diabo, e lhe se crucifica no lábio todo o ato planejado que volta contra si. É a providência do acaso, que ensina a tomar cuidado com o desejo desvairado, transformando sucesso justo em fracasso.

Depois o segundos dos três, o que nada vê. Sempre caminha com o revólver carregado, apontando o gatilho cromado sem pensar no próximo bastardo. Na vã esperança que em um balaço pudesse ser amado, perdeu a mão em um tiro engasgado, mas nem por isso deixou de atirar para todos os lados, seguro que irá matar seu problema ao encontrar os próximos lábios.

Por último, o Tigre que diz tudo sem ouvir. Ignora o fato que apenas é surdo para si. Deixa as vozes de amparo de lado, e continua seu dia fingindo ser feliz. Desse o perigo é imediato, porque de sobressalto grita amargo sem refletir. Depois de um silêncio nada sábio, repete o mantra de que a vida é assim. Da negação vai a inanição, alimentando-se de seus suspiros, condimento venenoso da sua própria ração.

Mas amigos, eu aviso, não os escute por muito tempo. Deixe-os de lado, porque eles sempre estarão ali, sentados no canto, cutucando os buracos e esperando por devorar algo. Não repita os seus nomes rápido e muito menos se deite na cama ao seu lado. Eles são suaves e gentis, mas são nesses detalhes que os bichos fazem de mascote o homem, jogando um copo de cerveja para que role e fique a noite toda fingindo de morto ao sorrir.

E afinal, no meio desse desespero, que listra define um Tigre? Que cicatriz conta a sua história Triste? E acima de tudo, que conforto têm alguém em carregar os Três até o fim?

Talvez a resposta seja que os mistérios nunca estiveram nos quadros, nos livros, nos olhos. Quem sabe escondido entre os espaços no suspiro da pessoa ao lado que dorme quieta, satisfeita e, sem saber, feliz. Pois não há amor que possa recapear os buracos na estrada de um coração. Apenas a vontade em deixar tudo, recomeçando nos detalhes de um gesto que está por vir.

Quando só lhe restarem escutar esses Três pobres Tigres Tristes, cantem para os fazer dormir, sabendo que nunca, de dentro de vocês, eles irão partir. Suas listras fazem parte ainda de toda dor que está aí. Apenas sentem e esperem, sem medo ou covardia, pois todos sabem, a vida, em geral, é uma merda...

...mas sempre há o amanhã, aquele próximo dia na bela rotina de não se ter a mínima idéia do que essa mesma vida de merda, de bom, nos reserva.


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Na foto o famoso poema do Blake "The Tyger", ilustrado pelo mesmo. Esse texto acima é antigo, mas só consegui terminá-lo agora. Demorei para chegar ao conceito final. Bem alegórico, no final das contas... Outra pequena poesia narrativa, mas sem uma ambientação urbana como as outras, apenas discutindo sobre como se deve tratar os demônios pessoais. Estou muito bem com os meus, obrigado... Deixei eles dormindo na esquina, e quem sabe logo eu volto pra buscá-los... Por isso que, por enquanto, deixemos as coisas como estão, não?

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